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16 agosto 2011

Ciclo de Caminhada para um Tiranossauro

Já que estamos nesse clima de réptil gigante e ameaçador, vou mostrar um típico ciclo de caminhada (o famoso walk cycle). Mas esse não é um ciclo de caminhada qualquer, é um ciclo de caminhada para um Tiranossauro!! Ham?! Por essa você não esperava né?! Aposto que já viu um ciclo de caminhada para bonequinhos de palitos, para quadrúpedes e até para o Abaporu, mas não é em qualquer lugar que vemos um walk cycle para um Tiranossauro! Isso não!!
Se esse fosse um anúncio daquele famoso varejista de eletrodomésticos, eu diria: Chora concorrência! Porque só aqui você verá o processo de animação desde o início até a finalização do personagem! Ah fala sério! Eu ainda não sei como você não assinou nosso feed, deixou seu comentário e nos recomendou para seus amigos!! Cara, eu não te entendo!!

Vamos lá:
Primeiro - devemos nos concentrar nas pernas já que são delas que parte todo o movimento do personagem na caminhada. É aquele lance de propulsores da ação, lembra?!
Nesse, que é um ciclo curto, resolvi tudo em apenas 12 frames. É claro que tem a ver com a anatomia do personagem, sua atitude em cena e a própria linguagem geral do desenho animado que estou trabalhando. Se fosse um personagem mais pesado, ou numa atitude mais ameaçadora ou mesmo uma animação menos cartunesca, isso seria diferente. É importante que essas decisões sejam feitas nessa primeira fase, enquanto o personagem em cena não passa de um círculo e duas perninhas. É mais simples mudar tudo agora e não na finalização, concorda?!
Uma boa prática de produção é traçar cada parte do corpo do personagem em cores diferentes. Assim é bem mais fácil acompanhar o ciclo de animação de cada uma dessas partes sem confundi-las durante a execução do movimento.



Note os frames #6 e #7. No #6 os dois pés tocam o chão e no #7 os pés mantêm-se na mesma posição enquanto o quadril (nesse caso o círculo azul) desce ainda mais baixo. Isso faz parecer que o personagem possui peso... é legal fazer isso!
Destaque ainda para os frames #12 e #1 (nessa ordem mesmo). Como se trata de um ciclo de caminhada (walk cycle, pra ficar mais fácil do Google nos encontrar), após o #12 voltaremos automaticamente para o #1. O movimento deve ser sucessivo aqui. Um erro comum é tentar completar o movimento no último frame pra só então encerrar o ciclo. Nesse caso, teríamos um frame muito semelhante ao #1 na posição #13. O resultado seria uma aparente repetição do #1. Com isso o personagem pareceria mancar... e cara, você não vai querer isso, vai?!



Feito isso, acrescentamos o ‘grosso’ da anatomia. Aqui, como se trata de um Tiranossauro, a cabeça e a calda devem manter o personagem equilibrado. Notem os frames #3, #4, #8, #9 e #10, onde a perna que se movimenta está mais encolhida e próxima ao quadril, neles a cabeça e a calda também se aproximam mais do quadril (que é a parte central do corpo). Quando as pernas se afastam, cabeça e calda também se afastam. Vide frames #1, #6 e #12.
É importante notar também, que a ponta da calda é usada para acrescentar animação secundária.



Essa parte pode parecer complicada... e é mesmo! Mas vale a pena porque conseguimos aquele movimento típico dos* ...bem, tenho que confessar uma coisa...: talvez vocês não saibam, mas eu nunca vi um Tiranossauro pessoalmente, então me baseei nos movimentos das galinhas para essa animação. Como anatomicamente não são muito diferentes, seus movimentos devem possuir suas semelhanças, não é?!! Também, há quem diga que os dinossauros perceberam que não sabiam cantar, não cabiam em gaiolas, eram grandes demais pra se fazer coxinhas e que não caiam bem com catupiry e decidiram se transformar nas aves... enfim, esse lance da Seleção Natural, saca?!



Dizem por aí que mamilo é um assunto polêmico... bem, é porque ainda não se falou em braços de Tiranossauro. Aquilo sim é algo que ninguém gosta muito de falar. Então vamos ser rápidos aqui, ok!



Normalmente, em um círculo de caminhada, os braços de qualquer personagem são usados para animação secundária. Aqui também! É basicamente isso. Perna esquerda para trás, braço esquerdo para frente. Perna direita para frente, braço direito pra trás. Não esquecendo que a animação secundária é muito útil para tornar o movimento mais fluido então... nada de mudanças bruscas nesses bracinhos.



Feito tudo isso, agora sim você pode desenhar. É... desenhar mesmo! Acrescente os olhos, boca e todos os outros detalhes.



Nesse exemplo, tem umas coisas que gostaria de destacar:
Primeiro - note os frames #6 e #7, onde acrescentei uma rápida piscadela. Como já disse, essas piscadelas no momento e da maneira certa fazem com que o personagem pareça ‘vivo’. No caso de qualquer ciclo de animação, temos que ter cuidado. Lembre-se que esses 12 frames vão se repetir indefinidamente. Isso, somado a uma piscadela muito longa, fará com que ela ganhe mais importância que o necessário. Note que não usei quadros intermediários. O olho está aberto em #5 e fechado em #6.
Segundo – as unhas, tanto dos pés quanto das mãos, são preenchidas completamente. Isso são Marcações. Marcações na extremidade desses membros deixam seus movimentos mais definidos.



Embora esse personagem seja constituído de partes separadas e independentes (como vimos até aqui), isso não pode ser perceptível ao espectador final. Na finalização, redesenhamos as linhas de forma mais elegante possível para que as emendas não apareçam. Note o frame #4, a perna muito próxima ao corpo gera algumas dobras. Isso também contribui para a ilusão de que o corpo do personagem é uma forma única em si mesma.



Por uma questão de linguagem visual não utilizei sombras internas no personagem, mas variando o tom de verde nos braços e pernas, e acrescentando uma sutil sobra projetada no solo, criamos a ilusão espacial mais eficiente.



É isso. Coisa pra caramba, né?!
Então... deixe seu comentário, compartilhe com seus amigos e mãos a obra! Temos muito trabalho pela frente.

2 comentários:

Ari Crenio disse...

muito bom gostei tambe desenho mais minhas historias são fracas

Wedersom Arantes disse...

Ari,

obrigado pela visita e comentário!
Se está com problemas com seus roteiros. Recomendaria esses dois livros:

A Jornada do Escritor - Christopher Vogler
Manual do Roteiro - Syd Sield

Embora sejam sobre roteiro de cinema, é um bom ponto de partida pra qualquer contador de histórias.

Boa Sorte!